Jornal-Laboratório


Max Wolosker Neto

Aluno da UCAM – Nova Friburgo

2006.2
 

Apesar de ser árvore símbolo de um município do norte fluminense, fazer parte de uma cantiga popular e produzir um fruto muito apreciado, o cambucá é desconhecido da maioria dos brasileiros. Na lista das espécies em extinção, esta árvore nativa da Mata atlântica tem propriedades alimentícias, poderes medicinais, pode ser industrializada e servir de reflorestamento para recuperação ambiental.

O cambucazeiro, Plinia edulis (antiga Marlieira edulis), da família da Myrtaceae, árvore frondosa de rara beleza e floração branca, tem frutos amarelados e pode ser encontrada desde Santa Catarina até o Rio de Janeiro. Da mesma espécie da jabuticabeira – tanto flor como fruto nascem colados ao tronco ou nos galhos –, o contraste das suas cores lhe garante valor ornamental, diferente da parenta mais conhecida.

Seu fruto, medindo entre dois e meio e quatro centímetros de diâmetro, muito saboroso quando maduro é, porém, desconhecido da maioria da população. No entanto, eles são apreciados por um grande número de pássaros, o que aumenta seu valor, em função da contribuição à alimentação da fauna local.

Considerada uma raridade da Mata Atlântica, sua presença, hoje, está restrita a poucos quintais domésticos. Aqueles que o conhecem e apreciam seus frutos, como Eduardo Souza, colunista de O Guarujá, de Ubatuba, São Paulo, dizem “ainda sentir a boca se encher de água”, quando mencionam o cambucá. Para Eduardo, isso o remete aos tempos de infância, quando com estilingue nas mãos, se embrenhava nas matas para arrancar a estilingadas os frutos da árvore.

Regina Thurler, funcionária do INSS de Nova Friburgo, lembra-se de uma cantiga dos tempos de infância que dizia mais ou menos assim: “Laranja madura; melão; cambucá; pimenta de cheiro; mingau de cará.”
Uma árvore com várias utilidades

Cem gramas do fruto do cambucá contém  66 calorias distribuídas  em 15 g de carboidratos; 1,7 g  de proteínas; e 0,8 g de lipídeos. Na sua composição ainda encontramos 21 g de cálcio; 22 g  de fósforo; e 0.3 g de ferro. A fruta pode ser consumida nos regimes alimentares por quem tem colesterol elevado e pela população diabética, dentro da dieta habitual.

 Além de suas propriedades alimentícias, o cambucazeiro também faz parte da flora medicinal brasileira. Segundo o Dr. J. Monteiro da Silva, suas folhas, sob a forma de infusão, são muito úteis no tratamento das bronquites, no combate à tosse e, sobretudo, na coqueluche, uma doença que tanto atormenta nossas crianças. Elas servem também para aqueles que necessitam melhorar as defesas orgânicas. 

Com uma altura que varia de cinco a dez metros, a madeira do cambucá tem valor comercial, sendo utilizada na fabricação de cabos de ferramentas e de alguns instrumentos de uso na agricultura. Pode ser aproveitada também na construção civil e mesmo na fabricação de móveis.

Numa tentativa de preservação da espécie, a partir da lei municipal 605/2003, o cambucazeiro foi transformado em árvore símbolo do município de Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro. Os ecologistas locais estão investindo na sua cultura, através de uma parceria entre a Sociedade Ecológica Cantagalense (SECAN) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF) para a produção de mudas, no Horto Florestal da cidade. Desse modo, esperam reviver o Parque Municipal de Cambucás que infelizmente conta hoje com apenas uma única representante.

Essa ilustre desconhecida tem apenas um senão: leva muito tempo para se tornar adulta e dar frutos. Com dois anos de idade, atinge um metro e meio, menos da metade da sua altura quando adulta.

Um psicanalista que trafega pelo sagrado

Por: Max Wolosker Neto
Aluno da UCAM – Nova Friburgo  

2006.2  
 
 
Da experiência de seus quase setenta anos, Sérgio Machado, psiquiatra e psicanalista do Rio de Janeiro, além da carreira bem-sucedida, construiu também uma propriedade no alto do Caledônia de onde aprecia e admira uma maravilhosa vista de Nova Friburgo. Ele pretende fincar raízes por aqui para morar e clinicar.

Curiosa é sua caminhada ao longo da vida. Nos idos de 1964, formou-se em engenharia mecânica na Universidade Fluminense de Engenharia, mas  somente em 1977 é que concluiu o curso de medicina na Faculdade de Medicina da UFRJ. Talvez, estes dois cursos tão opostos em sua essência, sejam uma amostra de sua personalidade irrequieta e aberta.

O psiquiatra destaca-se no tratamento de pacientes de síndrome do pânico, depressão e no acompanhamento a portadores de câncer. Mas, aponta como uma de suas atuações mais marcantes, o trabalho realizado junto à mãe de santo Marlicene Figueiredo que redundou na fundação do Instituto São Cipriano, em Campo Grande, no Rio – hoje, uma ONG – que cuida de meninas entre sete e dezessete anos, oriundas de favelas da região de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, visando tirá-las da prostituição. Além de atendimento básico de saúde, em ginecologia e clínica médica e apoio psicológico, o instituto ministra cursos profissionalizantes e faz com que elas freqüentem a escola com regularidade. Sérgio tem também trabalhos publicados, dentre os quais destacamos “Manejo de situações clínicas difíceis”.

Com certeza, as características mais marcantes de Sergio são seu alto astral, que o deixa sempre de bem com a vida; o bom papo; e a visceral ligação com a natureza, que direcionou sua escolha por Nova Friburgo.

Sua vida acadêmica começa na Engenharia Mecânica. O que o levou a essa primeira escolha?

Sempre gostei de mecânica, desde menino montava e desmontava carrinhos. Meu avô paterno era engenheiro e meu pai sempre quis ser engenheiro, era seu sonho. Mas em função da guerra de 14, meu avô que trabalhava numa empresa alemã, perdeu dinheiro e meu pai não pôde estudar.  Acabou sendo bancário e morreu bancário. Depois que eu terminei meu processo de análise, concluí que a engenharia que cursei, foi para ele e não para mim. Para você ter uma idéia, no meu descanso dos estudos para o vestibular de engenharia, lia a História da Psiquiatria, de Frans Alexander, com a qual me divertia. Seis anos após a formatura de engenharia, recebi um comunicado do CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) me informando que estava exercendo a profissão ilegalmente. Isso, porque entreguei o certificado de conclusão da faculdade para o meu pai – que ficou orgulhosíssimo -, mas me esqueci de registrar o diploma!

O que o motivou para uma mudança tão radical, da Engenharia para a Medicina?

Acho que sempre tive essa queda pela medicina, apesar de não ter consciência disso. Na realidade, a única consciência que tinha era que estava muito infeliz como engenheiro. Trabalhava muito, era o que hoje chamamos de workaholic. Em 1969, estava numa obra em Santa Catarina, na hoje famosa praia de Garopaba, quando comecei a ter dores de cabeça insuportáveis. Fui transferido para o Rio onde diagnosticaram uma meningite tuberculosa. Tive de ficar um ano e meio parado, sendo que três meses praticamente isolado, para fugir de estímulos sensoriais, principalmente, som e luz. Durante esse longo período, tive tempo para pensar e cheguei à conclusão de que a doença tinha sido uma tentativa de suicídio bem sucedida. O Sérgio Machado que emergiu dessa situação, era uma pessoa completamente diferente que, entre outras coisas, abandonou a engenharia e decidiu ser médico.

Quantos anos você tinha, quando fez Medicina?

Fiz o vestibular com 34 para 35 e terminei a faculdade com 40 anos. Para se ter uma idéia de como o meu objetivo era mesmo a Medicina, estudei três meses e passei em décimo nono lugar na UFRJ. Para Engenharia, tive que fazer quatro vestibulares.

Você não pensou em seguir bioengenharia e unir as duas atividades?

Nunca. Na realidade, nunca me senti engenheiro. Tenho um grande amigo, Dr. Adolfo Leirner, formado no ITA e em Medicina, um ano antes de mim, que seguiu esse caminho e hoje é diretor do Instituto do Coração – INCOR -, em São Paulo, e responsável pelos corações artificiais do instituto. Eu, ao contrário, sempre quis ser médico e psiquiatra.

O que o levou à psiquiatria e à psicanálise?

Acho que a medicina e a psiquiatria vêm de berço, é como o dom da música. A ligação com a psicanálise começou na época em que larguei a engenharia, pois minha família e meus amigos diziam que eu estava completamente louco e deveria fazer análise. Logo eu que sempre tive muito medo (e continuo tendo), de psicanalistas (risos)! O internato, no sexto ano de medicina, já fiz em psiquiatria, depois cursei dois anos de pós-graduação que me deram o título de especialista. Paralelamente a isso, fiz cinco anos de formação analítica. Só que hoje, faço psicanálise do meu jeito, o que me fez sair da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Na verdade, acho que nem deveria ter sido aceito, pois minha atuação (inclusive receitando medicamentos), não se enquadrava com as diretrizes da sociedade, dirigida para quem gosta da política e da produção teórica psicanalítica. Eu gosto mais de clínica, de doença, tenho uma conduta mais realista, muito diferente da que se procura num analista padrão.

Misticismo e Psiquiatria têm algo a ver? Você tem alguma religião, professa alguma crença?

Acho que tem tudo a ver porque tem muito místico doido; e muito psiquiatra místico; e que não sabem. Eu não tenho nenhuma fé religiosa, embora trafegue pelo sagrado.

Como foi seu envolvimento com o Centro São Cipriano, da mãe-de-santo Marlicene?

Eu tinha um terreno ao lado do centro de umbanda da Marlicene que estava com problemas burocráticos. Um dia fui lá para resolver estas questões e meu empregado sugeriu que eu fosse ao terreiro vizinho para ver se havia envolvimentos espirituais nas dificuldades que enfrentava. Apresentaram-me à Marlicene e ela perguntou se eu era médico, pois atendera uma moça que passava mal e o caso era para médico e não para mãe de santo. Eu a examinei e vi que estava delirando, em franca crise psicótica. Mandei comprar medicamentos injetáveis que, depois de aplicados, me obrigaram a esperar para aguardar o resultado. Quando descobriram que eu era médico, até a psicótica melhorar, fiz sete atendimentos. Marlicene me disse que eu tinha o dom da cura e perguntou se não gostaria de trabalhar lá, como médico. Eu topei e foi assim que tudo começou.

Quer dizer que você é um dos fundadores do atual Instituto São Cipriano?

Sim e tenho muito orgulho de ter começado este trabalho. O início foi curioso, engraçado mesmo. Como não tinha consultório lá, era obrigado a atender no meio do terreiro com um grande altar sincrético ao fundo. Por respeito, tirava os sapatos; por ser médico, andava de branco. Desse modo, entre um médico e um pai de santo, a diferença era muito pequena. Mas no centro, minha palavra passou a ter um peso muito maior que no meu próprio consultório, afinal dava remédio e ainda estava na frente do altar (riso)!

Como era sua relação com os pacientes no centro da Marlicene?

O mais importante era o diferencial do tempo do atendimento. O paciente esperava muito menos para ser consultado do que num ambulatório público. Além disso, tinha tempo de conversar e contar seus problemas. A consulta não tinha nada de psiquiátrica, psicanalítica ou esotérica, apenas o cara saía dali se sentindo uma pessoa tratada com humanidade. Isso se refletia no tratamento, os medicamentos eram mantidos e, com isso, os sintomas melhoravam.

Como era o trabalho no centro São Cipriano?

Começou com atendimento médico e, quando se fazia necessário, encaminhava pacientes para colegas de diversas especialidades. Muita gente que freqüentava o centro, conseguiu tratamento dessa forma, o que seria impossível por conta própria. Aos poucos, levei para lá vários amigos engajados em trabalhos sociais e começamos a estudar um meio de tirar as crianças da rua. Basicamente, as meninas, pois é mais fácil lidar com elas, por serem mais dóceis e cordatas. Hoje, o instituto tem 240 meninas de sete a dezessete anos com acesso a cursos profissionalizantes: corte e costura, bordado, cabeleireira, manicura, computação, inglês e português. Além disso, há uma creche, construída em convênio com a prefeitura, com 150 crianças de zero a sete anos, a quem fornecemos café da manhã e almoço.

Como é o entrosamento profissional de um médico com uma mãe de santo? Quem ensina a quem, ou ambos saem ganhando?

Acho que saí lucrando mais do que ela. A Marlicene é uma pessoa fora de série, com uma experiência que não sei de onde ela tira. Aprendi muito com ela que, inclusive, já escreveu livros, discute sobre mecânica quântica, fala sobre filosofia. É impressionante, em qualquer assunto, dialoga com a maior tranqüilidade, apesar de ter cursado apenas o normal. É uma pessoa fantástica e, hoje em dia, uma mãe de santo light. Isto porque o enfoque dela também acabou mudando muito. Por exemplo, ela parou com o sacrifício de animais nos rituais que, atualmente, são feitos apenas com comidas.  Como geralmente faz-se muito mais quantidade do que o necessário, o que sobra é repassado para os asilos, abrigos e orfanatos da região. Na realidade, quem saiu lucrando mesmo foi a população de Campo Grande, pois lá havia carência de tudo e o Instituto São Cipriano veio preencher algumas lacunas e se transformou num centro comunitário com uma grande preocupação social.

Você ainda trabalha lá?

Não, fiquei lá durante vinte e quatro anos.  Parei, recentemente, pois com minha vinda nos finais de semana para Friburgo é difícil conciliar o tempo. Mesmo assim, ainda mantenho contato com a Marlicene, via Internet e eventualmente, quando ela precisa, ajudo.

Você tem algum caso pitoresco ocorrido no centro São Cipriano?

Lembro especialmente de uma festa de natal que foi tragicômica. Na época, tínhamos 180 crianças e, através de jantares com amigos, arrecadei dinheiro e compramos 400 brinquedos. Aluguei uma roupa de Papai Noel com cajado, saco e tudo e, naquele verão infernal de Campo Grande, me vesti na casa da Marlicene, que era perto do Centro. Quando atravessei a rua, dei de cara com um menino e sua expressão de espanto e felicidade, ao ver Papai Noel em pessoa, ficou gravada em mim até hoje. Mas o fato é que a festa foi um fracasso. Espalhou-se pela região que o bom velhinho ia distribuir presentes no centro e, de repente, apareceram umas mil crianças. Elas invadiram o local e me vi com o cajado na mão gritando: “Saiam seus pestes, fora daqui!”. A coisa foi complicada, pois tivemos de comprar balas e biscoitos para atender à demanda excessiva e eles reclamavam que os amigos tinham ganhado presentes e eles não. Ninguém obedecia, pois eu era um simples Papai Noel bem vestido, cujo código não era o deles. Lá, era um centro espírita, de umbanda, cuja festa maior é Cosme e Damião, o símbolo que eles respeitam e obedecem. Aí eu prometi a mim mesmo não fazer mais festas de natal e sim colaborar com a de Cosme e Damião, que são organizadas do jeito deles, maravilhosas, ordeiras, direitas e bacanas.

Você pensa mesmo em se mudar definitivamente para Nova Friburgo?

Se Deus me ajudar, venho. Há trinta anos atrás, tive um sítio em Macaé de Cima, por quase 14 anos. Aquele lugar é um sonho, mas por uma série de circunstâncias, acabei vendendo. Em seguida, tive um outro, em Rio Bonito, perto de Lumiar. Depois comprei uma propriedade em São José do Vale do Rio Preto, onde passei os últimos anos, um lugar também muito bonito, mas que era quente no verão. Friburgo sempre ficou no meu coração. Gosto de mato, de verde, do contato com a natureza, de frio, de acordar cedo e sair para caminhar. Isso tudo é o que não falta por aqui! Tenho um jipe vermelho e ando por esse mato todo. Aqui perto há uma cachoeira e tenho o privilégio de tomar banho, vendo a cidade lá embaixo. Meu sonho é vir morar aqui, definitivamente. Por enquanto, pretendo subir na quinta à noite e descer na segunda à noite. Desse modo, daria para abrir um consultório aqui e manter o do Rio. 

Alguma idéia de fundar um Instituto São Cipriano por aqui?

Em princípio, não tenho nada programado, vai depender muito de Friburgo e do acaso, como foi em Campo Grande. Mas, se necessário, posso também contribuir no atendimento comunitário. Minha experiência em Campo Grande é respeitável, atendi lá entre 4.000 a 5.000 grupos familiares.

Você como psiquiatra lida muito com a síndrome do pânico? O que é essa síndrome, tão falada atualmente? Seu diagnóstico é difícil?

Hoje em dia, no consultório a grande maioria dos casos é de pânico ou depressão. Se bem que penso que quem abre um jornal hoje e não fica deprimido, ou em pânico, não é normal! Mas, Campo Grande me ensinou muito, pessoas que há 20, 30 anos atrás eram diagnosticadas como portadoras de ansiedade generalizada, hoje seriam enquadradas na síndrome do pânico. Na minha opinião, o que caracteriza o pânico é que ele se manifesta independentemente de qualquer estímulo externo. Por exemplo, quando você perde um ente querido, pode sobrevir uma depressão reativa – que é até esperada. Ou então pode surgir uma depressão fóbica, não reativa – que é um quadro psiquiátrico. No pânico não. O indivíduo está dirigindo o seu carro e, repentinamente, tem um troço – talvez uma descarga violenta de cortisol – que causa taquicardia, falta de ar, medo de perder o controle e de morrer. Ele larga o carro no meio da rua e sai correndo. É atendido num pronto socorro, taquicárdico, mas com pressão arterial normal que melhora com um medicamento benzodiazepínico, relaxante. A partir daí, o cara começa a ficar com medo do medo. Para mim o pânico é isso, você não tem nada prévio e, subitamente, se desencadeia uma situação como essa. Acho que ele está associado a uma condição fóbica e, como toda fobia, a um quadro depressivo subjacente. Portanto, é tratável com antidepressivo.

Já que você falou em depressão, qual a diferença entre depressão e angústia?

Essa é uma pergunta capciosa, porque é difícil diferenciar as duas. Geralmente, a depressão vem acompanhada de pensamentos negativos, o paciente acha que nada vale a pena, nada vai dar certo, que o melhor é morrer mesmo. É um processo mais de alma. A angústia está mais ligada a algo existencial, é mais filosófica. O fato de estarmos vivos hoje, produz angústia.  O governo que temos, a fome na África, a violência no Rio de Janeiro são causas de angústia e não de depressão.

No caso do câncer, a própria doença leva à depressão ou ela surge em função do tratamento?

As duas coisas. Já vi portadores de câncer se tornarem mais espertos ao receber a notícia e reagirem de uma forma fantástica. Assim como já presenciei portadores de câncer deprimirem gravemente, diante da ameaça real que estão sofrendo. Nesses casos, é preciso ajudá-los a lidar com essa situação. O uso de antidepressivos, desde que venha junto com a psicoterapia, tem um efeito muito bom. Só acredito no antidepressivo, sozinho, nas depressões maiores, endógenas. Acho que não existe uma relação direta entre câncer e depressão. Apesar dos quimioterápicos reduzirem a taxa de serotonina, nem todos os pacientes passam por esse quadro.

Você é casado, tem filhos? Fale um pouco de sua vida familiar.

Tenho cinco filhos, dois do meu primeiro casamento e três com a Marilda. Na verdade, eles são meus enteados, mas como estamos juntos há mais de trinta anos, os considero como meus filhos, também.

Você tem algum projeto, além da medicina?

Um projeto que já estou realizando, com a ajuda do jornalista Silvio Ferraz, é escrever minhas histórias, afinal com minha idade, já posso olhar para trás. Só pretendo parar de trabalhar quando morrer, gosto muito do meu consultório. Aliás, outro dia aconteceu um caso engraçado. Tenho um paciente esquizofrênico que é muito boa gente. Ele estava na sala de espera e eu atendia uma freira, levada por outra religiosa, com uma profunda depressão. Quando a consulta terminou e abri a porta, ele viu as duas freiras, de hábito, indo embora. Ele entrou e me perguntou: “Pô Sérgio, será que eu piorei muito? Saíram mesmo duas freiras daqui?” Quando eu confirmei que sim ele indagou: “E freira vai a psiquiatra?”

Max Wolorsken

Aluno da UCAM – Nova Friburgo

2006.2

Friburgo produz uma grande variedade de flores, dentre as quais 270 espécies de orquídeas, muitas bromélias e aves do paraíso, ou estrelítzia. Esta produção é considerada de caráter ornamental, na maioria das vezes, vendida em vaso e destinada ao consumo local. Além disso, o município produz flores de corte cujo cultivo é comercializado industrialmente para vários pontos do país. Entre elas se encontram:

 Copo de Leite, lírio do nilo
 Zantedeschia aethiopica

 
Familia: Aráceas
Origem: África
Floração: Primavera e verão

O copo-de-leite é uma flor ornamental de encher os olhos que se adaptou muito bem em terras brasileiras. Suas folhas são grandes, cordiformes-sagitadas e as flores, amareladas ou brancas, têm a forma de um copo. Seu nome é uma homenagem ao cientista Francesco Zantedeschia que, além de médico, era também botânico.

Na Inglaterra do século XIX, simbolizava a nobreza e a boa educação, e demonstrava, grande estima e amizade, ao ser ofertada. No Brasil, é muito usado como decoração, pelas noivas, simbolizando pureza e virgindade.

Apesar de sua beleza, há de se tomar cuidado com ela, pois é tóxica, podendo causar  problemas irritativos e inflamatórios, tanto no contato, como na ingestão de suas folhas ou da sua seiva.
 Palma de santa rita, gladíolo
  Gladíolus sp
 
Familia: Iridáceas
Origem: África do Sul
Floração: Quase todo o ano

 
A palma-de-santa-rita, o popular gladíolo, pertence à família das iridáceas. É uma herbácea que pode atingir os 90 cm de altura. Pelo menos quatro horas diárias de sol direto são necessárias para o seu cultivo. O solo ideal para o plantio é o argiloso e a planta deve receber regas moderadas, sem excessos, para não correr o risco de provocar o apodrecimento dos bulbos. A planta é originária da África, Ásia e Europa e produz flores praticamente o ano inteiro, daí sua boa adaptação ao Brasil.

A palma é uma importante flor de corte que não requer cuidados especiais, portanto é ótima para arranjos florais. Seu grande diferencial é uma extensa variedade de cores que podem ser de uma tonalidade apenas, como a lilás; ou bicolores como a mescla de vermelho com amarelo
      
  
Rosa chá
Rosa Apogée                                      
   
Familia: Rosáceas
Origem: China
Floração: Primavera e verão

Considerada a rainha das flores, de acordo com a mitologia grega, Chloris, a deusa das flores, criou a rosa a partir do corpo de uma ninfa encontrada num bosque. Afrodite deu a beleza, Dionísio concedeu o néctar e Apolo poliu e fez florescer a flor. Dessas três graças nasceu a flor das flores: a rosa.

O hábito de cultivar rosas surgiu no século XVIII, mas foi somente a partir do século XIX, que os roseirais ganharam força. Elas nascem em arbustos ou trepadeiras e as folhas são simples, partidas em cinco ou sete lóbulos de bordos denteados. As flores, na maior parte das vezes, são solitárias. Apresentam originalmente cinco pétalas, muitos estames e um ovário ínfero. Os frutos são pequenos, normalmente vermelhos, algumas vezes comestíveis.

Beleza atrai beleza, para se conquistar uma bela mulher, nada melhor que presenteá-la com um bonito buquê de rosas vermelhas.

Gypsophila (Mosquitinho ou Banquinha)         
Gypsophilla paniculata, Gypsophilla elegans)
             
Família: Cariophillaceae
Origem: Regiões mediterrâneas, Leste da Europa e Sibéria
Floração: Outono  
            
As variedades de coloração branca são as mais cultivadas no Brasil, principalmente porque são fáceis de serem tingidas em colorações diversas. A sua durabilidade pós-colheita varia entre uma a duas semanas. Trata-se de uma planta altamente ramificada, que atinge, aproximadamente, um metro de altura. As folhas são finas e pontiagudas, de coloração verde-acinzentada e superfície pilosa.

Por sua leveza e suavidade é muito utilizadas para completar arranjos florais de vasos.

 CRISÂNTEMO
Dendranthema grandiflora

Família Compositae
Origem: Ásia
Floração: Inverno

Originário da Ásia, o crisântemo foi adotado como símbolo nacional do Japão. Chegou à Europa por volta de 1700, onde foi melhorado geneticamente até alcançar as variedades atuais. Atualmente é a principal flor de corte do mercado brasileiro.

O crisântemo cresce em dias longos e floresce em dias curtos, daí ser uma flor de inverno. Para ser produzido durante o ano todo é necessário fazer o plantio em estufas durante o verão, onde técnicas de escurecimento permitem a obtenção artificial de plantas floridas. 

Hoje em dia destacam-se os tipos: “margarida”, bastante comum no Brasil e na Europa; o “spider” com pétalas tipo alfinete; e o “pom pom”, crespo e arredondado. Quanto ao tamanho, dividem-se entre crisântemos, largos, médios e minis, dependendo da finalidade (corte ou vaso). As cores podem ser as mais diversas possíveis, destacando-se: o branco, amarelo, vermelho, lilás, roxo, salmão e a mistura dessas cores em tons variados.
Consultor
Martins, agrônomo da EMATER
 

Priscilla Lanes e Sarah Patrocinio

A violência contra a mulher é um fato muito comum em nossa sociedade. Com inúmeros motivos e até mesmo sem estes, mulheres de todo o mundo são agredidas fisicamente ou sexualmente sem chance de defesa e acabam ferindo sua imagem e sua própria razão de ser. Nesses casos de agressão e até mesmo de ameaça, as vítimas podem fazer a denúncia contra o agressor.

No Brasil existem as Delegacias Legais de Atendimento a Mulher, que foram criadas no ano 2000 e são específicas para as mulheres. Diferente das delegacias convencionais, elas dão um suporte maior no tratamento do caso e na investigação, oferecendo apoio psicológico.

A vítima faz a ocorrência, essa pessoa é encaminhada a um dos centros de ajuda especializados e recebe um apoio psicossocial. Para evitar maiores constrangimentos, na delegacia legal, as delegadas são mulheres, apesar de o registro ser feito por policiais de ambos os sexos. E lá a vítima recebe total apoio, tendo uma estrutura capaz de ajudar no caso.
Apesar de a existência desse tipo de órgão voltado diretamente para a mulher, e sabendo ser de total confiança, muitas mulheres ainda hoje têm medo de denunciar os agressores. Estes maus tratos são freqüentemente ignorados e/ou escondidos por parte da vítima, que sente medo ou vergonha ou pela proximidade do agressor com o agredido. Segundo os dados apresentados pela ONU, entre uma e 20 mulheres em cada 100 confirmam ter sofrido abusos sexuais em casa, antes dos 15 anos.

Em 7 de agosto de 2006, entrou em vigor a Lei de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, mais conhecida como Lei Maria da Penha. A nova lei altera o Código Penal e permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham a prisão preventiva decretada. Também acaba com as penas pecuniárias, aquelas em que o réu é condenado a pagar cestas básicas ou multas. Altera ainda a Lei de Execuções Penais para permitir que o juiz determine o comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação.

A lei também traz uma série de medidas para proteger a mulher agredida, que está em situação de agressão ou cuja vida corre riscos. Entre elas, a saída do agressor de casa, a proteção dos filhos e o direito de a mulher reaver seus bens e cancelar procurações feitas em nome do agressor. A violência psicológica passa a ser caracterizada também como violência doméstica. A mulher poderá ficar seis meses afastada do trabalho sem perder o emprego, se for constatada a necessidade de manutenção de sua integridade física ou psicológica.

Centros de assessoria jurídica

- CIAM – Centro Integrado de Atendimento a Mulher End.: Rua Regente Feijó, 15- Centro Tel.: (21) 2299-2122

- NIAMs – Núcleos Integrados

- CEOM Zuzu Angel – (Centro Especial de Orientação à Mulher) End.: Rua Camilo Fernandes  Moreira, s/nº, Neves – São Gonçalo – Tels.: (21) 2628-8228 / 2607-1717 – Ramal:4355

- NUDEM – Núcleo de Direitos da Mulher da Defensoria Pública- End.: Av. Marechal Câmara,  314 – Centro

- SOS Mulher – Hospital Pedro II – End.: Rua do Prado, 325 – Santa Cruz -Tels.: (21) 3395-0123 / 0313

- Casa da Mulher Bertha Lutz End.: Rua Grandes Lojas, 107 – Bom Retiro – Volta Redonda,
             tels.: (24) 3345-4444 / 3347 – Ramal:140

- DEAMs – Delegacias de Atendimento a Mulher

- Disque Mulher Baixada (8 às 17 h) –  (21) 2471-5825

- Disque-Denúncia (Defesa Mulher) – (21) 2253-1177

- Disque-Mulher – (21) 2299-2121 (9 às 16 h, de segunda a sexta)

Jílio Longo e Guilherme Torres

A falta de credibilidade da polícia brasileira tem feito com que os bandidos percam totalmente o respeito por ela. Sabendo que ficarão impunes, os criminosos têm promovido suas ações mais despreocupados, à luz do dia, sem se importarem com os riscos de serem presos. Ultimamente, os delinqüentes têm feito deboches em relação à força policial brasileira.

No decorrer de abril deste ano, por exemplo, repercutiu muito o caso do bandido Jairinho, de uma facção criminosa do Rio de Janeiro, que teria uma página pessoal no site de relacionamentos Orkut. Na suposta página do criminoso, ele aparece em fotos com muitas jóias, armas e até mesmo um uniforme da própria Polícia Federal. Nas legendas das fotos, o bandido, um dos mais procurados do Estado do Rio de Janeiro, debocha da polícia dizendo que nunca será pego.
Apesar de polêmico, o caso de Jairinho é apenas mais um dos muitos que têm invadido a internet com mensagens de apologia à criminalidade. No mesmo Orkut, pode-se acessar algumas comunidades relativas a facções criminosas que fazem apologia explícita ao uso de drogas e às armas. Encontros e brigas são marcados entre membros de facções rivais por meio do site e ameaças são feitas de um grupo a outro. Tudo de maneira explícita e pública, sob os olhos de nossas autoridades.

Já no cenário musical, as manifestações de apologia ao crime há algum tempo são comuns em nossa cultura. Durante os anos 90, foi composta e gravada uma canção chamada “O Rap das Armas”, que citava diversos modelos de armamentos e fazia exaltação a eles. Também nesta época houve um grande “boom” de músicas sobre mortes e violência, além da criação de temas com personagens com nomes no mínimo exóticos como “Jack Matador”.

Hoje em dia, por exemplo, são os “proibidões”, músicas do estilo funk que abertamente fazem citações e apologia às principais facções criminosas em suas letras, sucessos na maioria dos bailes da cidade. E, notoriamente, quando são feitas tais citações, os jovens presentes nos bailes funk vão ao delírio. Curiosamente, contudo, muitos deles sequer fazem parte dessas facções e tampouco têm a mínima noção do que elas representam para a nossa sociedade. Mas ainda assim, interagem harmoniosamente com as canções.

Tanto no caso do bandido que desafiava a polícia pelo Orkut quanto nas já populares manifestações artísticas que usam como matéria-prima a violência, fica explícita uma nova e alarmante faceta da nossa sociedade. Se os mais otimistas julgam os fatos apenas como meras manifestações culturais, outros, mais realistas, encaram a situação como álibi perfeito para se viver ativamente a violência sem motivo para culpabilizações. Ou seja, é um quadro que indica não só o crescimento da cultura da violência, mas, o que é mais preocupante, o desejo sempre crescente dos nossos jovens de estarem inseridos nesta cultura.

Gabriela Fernandez 

Para o comentarista esportivo Paulo Stein a violência está nos estádios brasileiros e internacionais, assim como em todos os momentos da nossa vida cotidiana. Segundo ele, o futebol por despertar grande paixão, pode acirrar ainda mais o sentimento de exclusão, sobretudo pelo o sentido de disputa. Sinaliza o caminho para que a paz volte a reinar nos gramados. “Criminalizar essas demonstrações de violência, por meio de uma legislação mais rigorosa, pode ser uma solução viável”, aponta Stein. Na sua opinião, a violência nos estádios é o reflexo da enorme desigualdade social que acontece no Brasil. Acompanhe a entrevista:

TJ – Você acha que a violência nos estádios de futebol pode ser considerado um problema social?

PS – Claro que é. É a extensão do que acontece no cotidiano de nossas cidades, conseqüência da falta de oportunidade para todos e de uma legislação mais punitiva. A violência está em todos os lugares e o futebol, grande paixão popular, acirra ainda mais o sentimento de exclusão por ter, como qualquer outro esporte, o sentido de disputa, separando as pessoas por suas preferências por times, nesses casos, um fanatismo exacerbado. Repetem-se aí os mesmo grupos de excluídos que vivem em comunidades miseráveis e pobres. 

TJ – Na sua opinião, quais as providências mais imediatas para diminuir ou mesmo sanar esse problema?

PS – O primeiro passo é o país resolver a sua enorme diferença social e reformular a legislação, criminalizando mais esse tipo de conflito. É importante destacar que, a meu ver, não existe necessidade de uma legislação específica para se conter a violência nos espetáculos de futebol ou em outros esportes. O que acontece aí é a repetição da violência urbana que a nossa legislação não pune ou prevê punições brandas.

TJ – Você concorda com a política de prevenção da violência nos estádios em uso na Europa?

PS – Os problemas sociais na Europa são diferentes dos nossos. Lá a violência está mais ligada a disputa entre grupos que lutam por domínio. A aplicação severa dos castigos tipificados na legislação e com rapidez intimida controla melhor esse fenômeno. Lá ninguém invade um campo sem receber uma punição pesada. Os recursos do Estado são maiores e a Justiça é rápida e garante a punibilidade. Não obstante, a imigração de africanos e asiáticos desesperançados, que podem, de certa forma, ser comparados aos nossos excluídos, também contribuem para o aumento da violência. A violência nos estádios esportivos ou em qualquer outro lugar é o reflexo da desigualdade social.

Gabriela Fernandes

A violência nos grandes centros urbanos saiu das ruas para invadir, também, os estádios de futebol e isso não é novidade para ninguém. Fenômeno complexo que mistura fanatismo com desesperança, perda de identidade e válvulas de escape, torcidas adversárias passaram a se tratar como arquiinimigas e a tornar impossível a coexistência pacífica. Soluções já foram encontradas em alguns países, já que o problema não é um fenômeno brasileiro.

No Brasil, o menino ao nascer ganha nome, religião e um time de futebol. Mal começa a andar e já chuta bola com o uniforme do clube de preferência. Inicia-se, assim, a construção social do ato de torcer no futebol, do que resulta um fato sócio-histórico que mescla a identidade pessoal e coletiva do chamado torcedor.

O futebol permite uma violência simbólica, absolutamente saudável. Ela se manifesta por meio de gestos, gritos, xingamentos, vaias, canções, hinos, é emocionalmente sadia, gostosa e agradável e, diferentemente do que ocorre no cotidiano, aceita nos estádios. Tem como elemento básico a brincadeira. Não há outro momento da nossa vida em que isso seja permitido.

Há um limite em que a violência simbólica resvala para a violência real, que gera confrontos violentos. O grito de guerra vira ação. Muita gente não se sente parte de um grupo, falta-lhes um sentimento de pertencimento. Com família desestruturada, sem emprego e dinheiro, sem perspectivas, sem mecanismos de cidadania, são tênues os limites do matar ou morrer e daí resultam cenas impressionantes, protagonizadas por pessoas que depois da derrota do seu time não conseguem voltar à vida, à realidade.

A rivalidade entre as torcidas gera muitos casos de violência, resultante das manifestações exacerbadas dos torcedores em estádios de futebol em todo o mundo.

Não faz muito tempo os cronistas esportivos distinguiam com ênfase o futebol-arte, que seria o praticado no Brasil, do futebol-força, característico dos países europeus, pois Europa e América do Sul constituíam os dois grandes centros futebolísticos. O futebol-arte é marcado pela beleza, floreios, dribles, “bicicletas”, toques de calcanhar, e o futebol-força pelo jogado por atletas fisicamente bem constituídos, que usam o corpo e uma certa violência, e que se caracterizariam pela “falta de cintura”, como se dizia. Ao longo dos anos o futebol se disseminou praticamente por todos os países dos continentes, estabeleceram-se intercâmbios de jogadores e técnicos e resultando em múltiplas influências.

A violência no futebol pode ser encarada sob vários aspectos. Pode-se considerá-la inerente ao futebol. Então, acabaríamos com ele para extingui-la, uma visão simplista demais. Seria acabar com uma prática que pode estar violenta, mas não foi feita para ser violenta, a começar por suas regras extremamente éticas. Outro foco julga que existe violência no futebol por causa de alguns “marginais” que freqüentam os estádios. Então, bastaria prendê-los ou, como prega parte da mídia, cobrar ingressos mais caros, porque “marginal” é também pobre e não vai poder pagar. Seria uma forma de selecionar as pessoas que vão aos estádios. Isso é preconceito. Não podemos descolar o futebol da sociedade brasileira, pois o futebol é parte dela e como tal devem ser considerados os fatores que têm gerado a violência nos espetáculos futebolísticos.

Alexandre Chirispin

A violência no Rio de Janeiro é, há muito tempo, um assunto bastante surrado. A questão já se tornou banal e não choca mais ninguém que (sobre) vive na Cidade Maravilhosa ou adjacências nem tão maravilhosas assim. Os meios de comunicação estampam seus noticiários com o caos urbano da Bósnia tupiniquim como se fosse algo totalmente chocante, numa tentativa descarada de passar um ar de “Isso acontece no Brasil? Se ainda fosse em Genebra…mas Brasil!?”. Nosso povinho é tão hipócrita.

É claro que a população se assusta e teme as ações violentas em qualquer casta da sociedade. Mas ultimamente, o tema “violência” é tratado só como a morte por tiro. As pessoas no Rio parecem não pensar em outro sinônimo. A violência no Brasil é sempre tratada pela mídia de forma sazonal. Nos anos noventa, apesar de já existir arma de fogo, bala perdida e tráfico de drogas, a mídia dava mais atenção à violência doméstica e contra a mulher, só que isso não dá mais manchete, não rende ibope. Ninguém vai querer saber se eu bati ou apanhei da minha patroa a menos que sejamos a nata da sociedade. Criaram delegacias de mulheres, colocaram alguns anúncios na tv, ninguém mais falou sobre isso nem fizeram movimentos, até porque não daria audiência.

Hoje, apesar de ainda existir a violência doméstica, de trânsito, contra a mulher, contra animais, contra o meio ambiente, a violência verbal, moral e cultural, ninguém quer saber delas. Não dá para culpar o governo por uma briga de trânsito. A não ser que uma bala perdida atinja um dos envolvidos, isso certamente causaria um alvoroço.
Voltando para a questão da violência da moda, criou-se nome até para os antigos leões-de-chácara das favelas, agora eles se chamam “milícias”. O nome é bonito, poético. Mas só mudou de nome para enfatizar que a população vive em uma guerra civil, uma guerrilha. As tais milícias sempre existiram nas favelas, todos sabiam disso, e de repente os mesmos sabedores se viram assustados de novo com algo que, infelizmente, sempre foi normal. Os moradores das regiões onde as milícias atuam talvez nem saibam da existência desse nome. 

As pessoas clamam pela paz, manifestações em prol do mesmo tema, tomam a cidade e todos os jornais conseguem preencher suas páginas semanais. Uma gama de mobilizações contra a violência cercou o Rio de tal maneira que se perguntarem para qualquer simpatizante de um Movimento desses, “qual a ideologia de vocês?”, a resposta sempre será “A paz”. Ora essa, a paz é muito vago. Até os hippies tinham um ideal a mais. A verdade é que ninguém quer fazer nada além de participar de passeatas que arrastam milhares de pessoas, como se fossem a micaretas e conseguir então mais um abadá para sua coleção pacífica. A hipocrisia está de mais, Basta!

Gabrielle Martins

O crime ocorrido com o menino João Hélio, que foi arrastado até a morte durante um assalto no Rio de Janeiro. Entre os envolvidos, estava um menor de 16 anos, réu confesso.  A história não apenas chocou a sociedade pela extrema violência, mas também reacendeu o debate: a maioridade penal deve ser revista?

Os centros de reabilitação de menores estão entregues a inadimplência, em que imperam o abuso e violação dos direitos fundamentais. O intuito desse artigo não é defender os atos cometidos por menores, mas procurar uma punição correta e a possibilidade de uma reabilitação aos infratores. Por isso vamos refletir: é justo um menor entrar nesses centros como infrator e sair como marginal altamente perigoso? O objetivo de reintegrar e reeducar esses adolescentes para a sociedade está sendo cumprido?

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Subsecretaria de Promoção dos direitos da Criança e do Adolescente do estado de São Paulo, existem no Brasil 39.578 menores cumprindo algum tipo de medida socioeducativa, o que representa 0,2 da população entre 12 e 18 anos, 13.489 desses menores estão internados em instituições como a FEBEM. 50% dos menores infratores do país estão no estado de São Paulo. Destes, 41, 2% cumprem pena por roubo e 14, 7 por homicídio.

A partir desses dados surgem antigos questionamentos: Quem deve ser punido? Quantos anos devem durar a pena? Os culpados deverão ficar detidos em qual tipo de estabelecimento? Para os que são a favor da diminuição da maioridade penal há duas propostas: redução pura e simples da maioridade e a introdução de um mecanismo que permita ao juiz aplicar penalidades mais duras em casos concretos – partem da mesma presunção: a punição aplicada aos adultos deve ser a mesma para jovens. A resposta certa para isso é clara, mas pouco discutida: crianças e os adolescentes estão na fase da formação e não construíram ainda caráter isolado, diferentemente de um indivíduo adulto.

A busca da autonomia presume, o exercício da  sociabilidade, o contato com a cultura e o direito à educação, independente de raça, religião e classe.   Mas, atualmente em nosso país, a minoria  dos jovens tem  acesso a essas informações. Os números mostram que é expressiva a quantidade de crianças e adolescentes que não participam de uma formação educacional, social e cultural. E para estes excluídos, a entrada para a vida adulta é precoce e brutal.

As atuais propostas para a diminuição da maioridade penal não conhecem a existência de um programa social e político de inclusão. Se a solução para a queda de números de jovens na criminalidade se resolvesse apenas com a diminuição da maioridade penal, esse não seria mais um problema para muitos países que adotam uma maioridade mínima, chegando a 7 anos de idade, como na Ásia e África. Hoje, se pensa na diminuição da maioridade, mas o que virá depois? A pena de morte? Apesar de estar meio batido, a melhor solução, seria rever o sistema educacional de nosso país, pois a educação é a única medida concreta para reverter esta situação.

Renata Onaíndia

A violência contra as mulheres é o tipo mais generalizado de abuso dos direitos humanos no mundo, apesar de ser também o menos reconhecido. Constitui-se um problema grave de saúde, já que compromete sua saúde física e desgasta sua auto-estima. Infelizmente, a maioria das sociedades tem instituições sociais que legitimam, obscurecem ou negam este tipo de abuso. As mulheres e as crianças são as principais vítimas da violência sofrida no espaço doméstico, praticada, sobretudo, por maridos, companheiros, pais e padrastos.

Apesar de elevado, esse número, certamente, está subestimado, visto que, seja por medo – nos casos de estupro – ou por intimidações de diversas naturezas – nos casos de violência doméstica, muitas mulheres não recorrem às delegacias de polícia para denunciar agressões, ameaças, espancamentos e outras formas de violência.

Em 1993, a Assembléia Geral das Nações Unidas introduziu a primeira definição oficial deste tipo de violência quando adotou a Declaração para Eliminação da Violência Contra as Mulheres: qualquer ato de violência de gênero que resulte ou possa resultar em dano físico, sexual ou psicológico, ou sofrimento para a mulher, inclusive ameaças de tais atos, coerção ou privação arbitrária da liberdade, quer isto ocorra em público ou na vida privada.

Em vigor desde setembro do ano passado, digamos um pouco tarde para o tamanho do problema, a Lei Maria da Penha representou um avanço no combate à impunidade da violência contra a mulher. Com a Lei, o Brasil passou a ser o18º país da América latina a contar com uma lei específica para os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher.
As modificações mais imediatas foram: a criação de juizados especiais de violência doméstica e familiar contra a Mulher buscando mais agilidade aos processos. Uma pena três vezes maior no caso de prisão em flagrante, aumento de um para três anos, o tempo máximo de reclusão do agressor e o fim das penas alternativas como pagamento de cestas básicas ou multas. A violência psicológica também passou a ser considerada violência doméstica.

Mas de que vale a nova medida se as mulheres têm como normalidade apanhar em casa, deixar que suas filhas sejam violentadas por seus maridos ou tenham vergonha de registrar a queixa ou medo? Inúmeros são os casos de mulheres que foram assassinadas por seus maridos, em forma de represália às denúncias que elas próprias fizeram. O que a mulher precisa não é somente de leis, mas fazer com que elas aconteçam, e que suas tristes realidades, possam, enfim, serem modificadas.

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