Fernanda Silva
O tema ‘violência’ tão batido, surrado, golpeado, massacrado e espremido até a última gota de sangue pela mídia é como uma pessoa na mão de um serial killer. Ambos medem suas ações através do ibope. O assassino se satisfaz ao assistir a polícia se contorcer tentando findar o caso e pegá-lo. A mídia, por outro lado, vale-se da vendagem ou audiência.
Buscando a exaustiva exposição que se pretende esconder, assistimos meses a fio o tema violência sobreviver – naquele estágio da vítima do killer, que ensangüentada, rasteja pelo chão tentando fugir – por meio de duradouras suítes desenvolvidas no case da “bola da vez”.
A “bola” foi o menino João Hélio (que SIM!) brutalmente assassinado foi “fato noticioso” suficiente para valer repercussão. Vender jornal graças a tamanha tragédia, porém, já é escárnio. Responsabilidade social é terminar de pisar no cadáver? Ética é rolá-lo ladeira abaixo?
Não vale divulgar. O importante é espetacularizar a informação e, conseqüentemente, transmitir opiniões que qualquer pessoa poderá usar como argumento numa conversa de bar. Mas e os leitores como ficam nessa enxurrada? Além de dizerem que preferem pular a Editoria Cidades ou desligar a televisão, lotam (IN)conscientes as não menos espetaculares formas de defesa da sociedade civil: as passeatas na zona sul – com direito, medido numa alta probabilidade, à inserção dos melhores momentos numa novela do horário nobre.
Não acredito que devamos ficar de mãos atadas. Agora, fazer do caso João Hélio um boom de vendas e depois relegá-lo ao esquecimento como tantos outros “Hélios” é apoiar, sem uma verdadeira discussão, o mise en cene midiático.
Assim, para você que gosta de estatísticas e é adepto do “eu só acredito vendo”, procure verificar a repercussão hoje do caso do menino e dos sub-temas que vieram a reboque. Após passado o frenesi da “cobertura como ela é” – a bola já é outra e o caso fica delegado aos articulistas, aos achismos travestidos de técnica ou apenas uma nota escondida ou pelada.
Como o filósofo Guy Debord avaliou “o espetáculo organiza com habilidade a ignorância do que acontece e, logo a seguir, o esquecimento do que, apesar de tudo, conseguiu ser conhecido”.