Empreendedorismo se aprende na escola

Universidade pode desempenhar papel fundamental na formação de futuros empresários
PIERRE BALDEZ
JORNAL DO COMMERCIO
Ainda que as universidades brasileiras não tenham tradição em estimular e preparar jovens empreendedores, as salas dos cursos universitários podem ser o caminho para lançar empresários no mercado. O primeiro passo, segundo consultores e empresários, é aumentar o número de ações que estimulem o empreendedorismo dentro da universidade, como colocar a disciplina na grade curricular de todos os cursos e promover oficinas que mostrem aos alunos como transformar um projeto em negócio.

Pesquisa publicada esta semana pelo Sistema Firjan mostra que 65,6% de 1.795 universitários, todos do último período de cursos diversos, afirmaram que a universidade tem formação insatisfatória quando o assunto é formar empreendedores. O estudo aponta que as instituições de ensino superior, de acordo com 50,3% dos entrevistados, raramente ou nunca oferecem disciplinas sobre negócio próprio em sala de aula. Além disso, 57,8% responderam que os professores não os estimulam nesse sentido.

Ao serem questionados sobre a percepção dos fatores importantes para abrir o próprio negócio, pouco mais da metade (50,6%) respondeu que ter capital próprio seria a primeira opção. Ainda sobre essa questão, 28% disseram que precisam conhecer bem o mercado de atuação. Apenas 7,1% afirmaram que ter uma idéia ou produto inovador é importante. “A pesquisa mostra que há um paredão para os jovens quando chegam ao final da universidade e que é papel da sociedade oferecer uma bóia de salvação, como o caminho do empreendedorismo”, aponta Carlos Mariani Bittencourt, presidente em exercício da Firjan, que apresentou os resultados do estudo na última segunda-feira.

Para o diretor-geral do Sistema Firjan, Augusto Franco, é a idéia de inovação que precisa estar no sangue do empreendedor, pois é esta questão que ajuda a encontrar novos nichos de mercado. De acordo com ele, a pouca participação das universidades na divulgação e no estímulo do empreendedorismo, como foi mostrado no estudo, leva organizações como a Firjan firmarem parceria com a academia para fomentar o quesito inovação frente aos estudantes.

“Vamos conversar, em breve, com um fórum de reitores das universidades do Rio de Janeiro e desenvolver uma programação para aquelas que não têm uma grade informativa sobre o empreendedorismo. No caso das instituições que já têm uma programação, vamos ver onde podemos melhorar”, explica Franco, lembrando que a Firjan tem estimulado projetos de empreendedorismo por meio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL).

A presidente da Escola Júnior de Educação Física da Universidade Castelo Branco (EMJEF), Elaine Ferreira, concorda que o ensino da universidade no quesito empreendedorismo é insatisfatório. Por outro lado, a aluna explica que é na empresa júnior, instalada dentro do campus universitário, que tem adquirido na prática todo o conhecimento sobre gestão de empresas. A estudante acrescenta que existe apenas a disciplina de empreendedorismo e sustentabilidade comum a todos os cursos e tratada ainda com superficialidade.

“É preciso que haja mais incentivo ao empreendedorismo dentro das salas de aula. Mas participar da empresa júnior foi o grande diferencial para entrar no mercado. A universidade, nesse quesito prático, está sendo importante para incentivar a questão empreendedora”, avalia Elaine, que hoje, paralelamente ao trabalho dentro da empresa júnior, é responsável pela elaboração de projetos e captação de recursos do Instituto Muda Mundo.

Na análise do professor-tutor da EMJEF, Sérgio Tavares, se comparado ao quadro de dez anos atrás, a questão de fomentar empresários, de certa forma, evoluiu bastante dentro das universidades. Ainda assim, a conjuntura de ensino, pesquisa e extensão dos cursos precisa melhorar para dar maior espaço ao empreendedorismo.

“A empresa júnior de educação física da Castelo Branco, criada há oito anos, está entre as poucas desse curso no País. Até então, a empresa júnior era algo restrito aos alunos de administração. Isso mostra que, de certa forma, as instituições de ensino já estão se conscientizando que o empreendedorismo pode e deve ser incentivado em todas as áreas”, complementa.

INCUBADORA. Além da empresa júnior, a incubadora tem sido canal importante para preparar e inserir universitários no mercado empresarial. A PipeWay Engenharia, que nasceu e se desenvolveu dentro do Instituto Gênesis, incubadora tecnológica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro ( PUC-Rio ), é um exemplo de empresa que deu certo a partir dessa experiência. Especializada em inspeção de dutos, a companhia presta serviços em todo o Brasil e em vários países da América Latina.

“Começamos com capital inicial de R$ 40 mil em uma sala de 30 metros quadrados. A empresa começou com uma competência científica e a incubadora foi muito importante para que economizássemos tempo e recursos. Mas, sem dúvida, é preciso estimular a idéia do conhecimento relacionado ao mundo empresarial desde os bancos escolares. Mais do que isso: é preciso mostrar ao aluno como transformar uma idéia num negócio de sucesso”, avalia José Augusto Pereira da Silva, sócio da PipeWay.

De acordo com José Alberto Sampaio Aranha, diretor do Instituto Gênesis, é fundamental que as universidades invistam mais em oficinas para mostrar ao aluno como transformar projetos científicos em produtos ou serviços vendáveis. Para ele, se for feito esse trabalho de base, os jovens empreendedores universitários terão muito mais chances de sucesso ao montar uma empresa.

“Realmente a questão empreendedora precisa ser mais trabalhada dentro das universidades. Se o empresário chega à incubadora como uma boa base de gestão e comercialização, por exemplo, a chance de sucesso é maior. Não basta ter uma idéia inovadora se o empresário não sabe como colocá-la no mercado e gerir uma empresa”, defende.

Primeira empresa incubada da Universidade Veiga de Almeida (UVA), a Ponto 2 Design de Interiores tenta seguir os mesmos passos da PipeWay. Thiago de Oliveira Mattos, sócio da empresa, diz que a idéia de ser empresário já existia desde sua formatura em 2005, mas que não sabia por onde começar para entrar no mercado.

“Provavelmente se houvesse maior orientação e incentivo para montar uma empresa, já teríamos entrado no mercado. De qualquer forma, a assistência que a incubadora está nos dando agora tem sido imprescindível para entrar no mercado. No início, tivemos dificuldade para montar nosso plano de negócios, justamente pela falta de conhecimento do assunto”, explica, acrescentando que hoje tem três clientes.

Feira apresenta trabalhos de incubadoras e empresas juniores

Além da pesquisa, o Sistema Firjan, por meio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) abriu a semana, na sua sede, com um seminário e uma feira de empreendedorismo. Segundo os organizadores, o encontro teve a presença de aproximadamente 1.700 universitários de 19 instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro. No evento, 35 empresas juniores e nove incubadoras apresentaram trabalhos desenvolvidos a partir das universidades.

No seminário, os estudantes tiveram contato com profissionais que construíram negócios de sucesso. O objetivo foi passar para os universitários conhecimento das qualidades técnicas, gerenciais e características pessoais necessárias ao empreendedor. Mário Chady, sócio do Spoleto, disse que, antes de encontrar o conceito da rede, precisou abrir alguns restaurantes, sendo que a maior parte não teve sucesso. Mas, na opinião dele, esse período foi a grande escola para conhecer e encontrar o nicho de negócio atual.

“Faltava sinergia e os conceitos básicos de administração e gestão. A nossa experiência mostrou que não basta sonhar. É preciso saber executar as idéias. Queríamos vender comida sem o conceito de fast food, mas até chegarmos a esse modelo de restaurante erramos muito”, destacou Chady.

Em uma das palestras do seminário, o professor Fernando Dolabela, criador da metodologia Psicologia Empreendedora, disse que as idéias não têm valor sozinhas, pois o que vale no mercado é a capacidade de transformá-las em negócios. “O empreendedor é alguém que sonha e busca transformar o seu sonho em realidade. Logo, as universidades e outras organizações podem ajudar empresários nesse sentido”, afirmou.

Deixe uma resposta

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.